Outras acampadas, a crise e os protestos
Uma carga imoral
Bastões e cães contra pessoas que pediam uma casa que possam pagar, num país onde a habitação se tornou inacessível e onde outras acampadas foram quase sempre deixadas em paz.
Quando outros acamparam, a polícia deixou ficar
Dormir na rua em protesto não é novo em Portugal. Taxistas, professores, bombeiros, donos de restaurantes, a juventude do partido que hoje governa e até polícias já o fizeram, alguns durante semanas. Em quase todos os casos, a polícia não interveio.
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2011maio – junho
Acampada dos Indignados · Rossio, Lisboa
Cerca de cem jovens, inspirados no 15M espanhol, acamparam duas semanas pela "democracia verdadeira". A 4 de junho, a PSP carregou, levou tendas e cartazes e deteve três pessoas.
Retirada à força · 3 detidos -
2018setembro
Estudantes deslocados · Reitoria da Universidade do Porto
A Federação Académica do Porto acampou dois dias na Praça Gomes Teixeira contra o preço dos quartos.
Sem intervenção -
201819 – 26 setembro
Taxistas contra a "lei Uber" · Restauradores e Avenida da Liberdade, Lisboa
Mais de mil táxis, segundo a organização, ocuparam a Avenida da Liberdade e os Restauradores durante uma semana, dia e noite, até marcharem para o Parlamento.
Sem intervenção -
2020outubro
JSD · Ministério do Ensino Superior, Lisboa
A juventude do PSD, partido que hoje governa, acampou uma noite à porta do ministério pela falta de residências para estudantes. O protesto foi liderado por Alexandre Poço, então presidente da JSD e hoje vice-presidente do PSD.
Sem intervenção -
2020novembro
Restauração "Sobreviver a Pão e Água" · Assembleia da República
Donos de restaurantes e discotecas acamparam sete dias em frente ao Parlamento, em greve de fome, a pedir apoios na pandemia.
Sem intervenção -
2023janeiro
Professores da Fenprof · Ministério da Educação, Lisboa
Acampamento de professores junto ao ministério, durante a luta pela recuperação do tempo de serviço.
Sem intervenção -
2023abril – maio
Professores do STOP · Rossio e Largo de Camões, Lisboa
Cerca de 30 tendas montadas no mesmo Rossio, depois passadas para o Largo de Camões, onde ficaram cerca de uma semana.
Sem intervenção -
2024janeiro – fevereiro
Polícias da PSP e GNR · Escadaria da Assembleia da República
Dezenas de agentes passaram noites nas escadas do Parlamento a exigir um suplemento de risco; numa só noite foram 80. A 19 de fevereiro, centenas cercaram o Capitólio num protesto que não tinha sido comunicado. O Ministério Público arquivou o inquérito e a PSP arquivou 39 dos 43 processos disciplinares.
Sem intervenção -
2024a partir de 7 set
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202624 março
Estudantes do Técnico · Alameda, Lisboa
No Dia do Estudante, alunos do Instituto Superior Técnico acamparam uma noite contra o preço dos quartos.
Sem intervenção
Ao mesmo tempo, em Madrid
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2026desde 26 setembro
Acampada 26S · Puerta del Sol, Madrid
A acampada pela habitação que inspirou as portuguesas continuava montada a meio de outubro. O governo regional de Madrid pediu duas vezes o desalojamento e o Tribunal Superior de Justiça recusou ambas. O tribunal lembrou o direito de reunião e a proporcionalidade, e chamou à dissolução de uma manifestação "último recurso".
Protegida pelos tribunais
Em outubro de 2026, a PSP justificou as intervenções com a regra de que as manifestações em espaço público não podem prolongar-se para lá das 00h30. Não encontrámos notícia de que a mesma regra tenha sido aplicada aos bombeiros, aos professores ou aos próprios polícias. Sábado
Um país onde não se consegue morar
Em nenhum país da OCDE comprar casa se tornou tão mais difícil desde 2015 como em Portugal. Na União Europeia, os preços sobem aqui três a quatro vezes mais depressa do que a média, e arrendar em Lisboa custa mais do que um salário mínimo e meio.
Comprar casa face ao rendimento, em Portugal
Índice da OCDE do preço das casas face ao rendimento das famílias · 2015 = 100 · quanto mais alto, menos acessível
Em 2025, comprar casa em Portugal era 66,7% mais difícil, face ao rendimento, do que em 2015. É a pior evolução dos 33 países da OCDE comparados, como já tinha sido em 2023 e 2024.
Casas contra salários em Portugal
Subida em dez anos, de 2014 a 2024 · INE
Em dez anos, o preço das casas subiu quatro vezes mais do que o salário médio e duas vezes mais do que o salário mínimo.
Subida do preço das casas desde 2015
2015 até ao 4.º trimestre de 2025 (média da UE até ao 3.º) · as quatro maiores subidas da UE · Eurostat
As casas em Portugal quase triplicaram de preço em dez anos, quase três vezes a subida média europeia.
E continuam a subir mais do que em qualquer outro país
Subida num ano · 2.º trimestre de 2026 face ao mesmo trimestre de 2025 · Eurostat
E as rendas
Renda de um T2 face ao salário mínimo nas capitais da UE
Renda média de um T2 em percentagem do salário mínimo · 2026 · 21 capitais · a linha tracejada é um salário mínimo inteiro
Em Lisboa, um T2 custa em média 1798 euros por mês, contra um salário mínimo de 1073 euros por mês (920 euros pagos 14 vezes por ano). Só em Bruxelas, Berlim, Nicósia, Luxemburgo e Haia o salário mínimo chega para pagar a renda.
Inquilinos sobrecarregados com a renda
Inquilinos com renda a preço de mercado que gastam mais de 40% do rendimento em habitação · 2025 · Eurostat
Mais de um em cada quatro inquilinos em Portugal gasta mais de 40% do que ganha só para ter casa (no ano anterior eram 30,3%).
Portugal tem as casas mais sobrevalorizadas da União Europeia, cerca de 25% acima do que os fundamentos justificam, segundo a Comissão Europeia.
Idade média a que os jovens saem de casa dos pais em Portugal, contra 26,2 na média da União Europeia. O Eurostat associa este atraso ao custo da habitação.
Das casas em Portugal são habitação social (INE, 2015). Nos Países Baixos são 29%; na Áustria, cerca de 24%.
E perante isto, o que faz o Governo
Em vez de travar as rendas, o Governo propôs uma nova lei do arrendamento (Proposta de Lei n.º 103/XVII). Foi aprovada na generalidade a 30 de setembro, com os votos do PSD, da IL e do CDS e a abstenção do Chega; PS, Livre, PCP, BE, PAN e JPP votaram contra. Quase todas as medidas dão mais poder aos senhorios.
- Renda livre nos contratos novos. Acaba o limite à renda quando um contrato termina e outro começa: o senhorio passa a pedir o que quiser.
- Despejo mais cedo. O senhorio pode avançar com dois meses de renda em atraso, em vez de três. Pagar com oito dias de atraso três vezes num ano também passa a contar como incumprimento.
- Mais tempo para o senhorio, menos para o inquilino. O senhorio tem seis meses, em vez de três, para decidir pôr fim ao contrato por falta de pagamento. Depois da sentença, despejo e cobrança das rendas fazem-se num só processo, com menos formalidades.
- Mais dinheiro à cabeça. Cauções e rendas adiantadas passam a ser negociadas com mais liberdade, o que, num mercado sem casas, quer dizer o que o senhorio exigir.
- Contratos menos estáveis. A renovação automática dos contratos fica mais fácil de afastar.
- O Estado garante o senhorio. Durante o processo de despejo, o Estado paga ao senhorio as rendas que se forem vencendo.
E para os inquilinos? Um Fundo de Emergência para a Habitação, que paga entre 537 e 2300 euros por mês, no máximo durante seis meses, a quem fique sem casa. É um apoio temporário para depois do despejo, não uma forma de o evitar. O Governo promete ainda manter a proteção dos inquilinos com 65 ou mais anos e contratos anteriores a 1990, em termos por definir.
A Associação dos Inquilinos Lisbonenses lembra que a falta de pagamento afeta cerca de 1% dos contratos e chama "falsa questão" a acelerar despejos. Para aprovar a lei, o PSD comprometeu-se com o Chega a rever as cauções e a proteger idosos com contratos antigos.
E como responde o povo
Assembleias, concertos, cozinha comunitária, pessoas a dormir. Até a PSP saudou a forma cívica e responsável como as pessoas se manifestaram.
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25 out · a própria PSP
Em comunicado, a PSP disse que o direito de manifestação tinha sido garantido e saudou "a forma cívica e responsável" como as pessoas participaram nas manifestações de 24 de outubro.
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24 – 25 out · Lusa
As manifestações de Lisboa e do Porto decorreram pacificamente e sem incidentes até à intervenção policial, segundo a agência Lusa.
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20 out · Rossio, antes das 6h
Um jornalista presente descreveu um ambiente sereno e de pouco ruído: grupos a conversar, pessoas a dormir nas tendas, uma tenda central com comida e medicamentos. Segundo a organização, a polícia entrou quando a maioria dormia.
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15 out · Porto
Segundo quem lá estava, os acampados já tinham arrumado as tendas quando a carga começou.
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25 out · observadores independentes
A Amnistia Internacional teve observadores no local e fala em uso excessivo e desproporcionado de bastões contra manifestantes.
O que diz a PSP, e o que se responde
- 20 out · A PSP diz que avisou a partir da meia-noite.
- A PSP pediu a saída à meia-noite, mas os três avisos de dispersão vieram às 5h48, 5h54 e 6h02, e a força seis minutos depois. Segundo a organização, a maioria dormia. Lisboa Para Pessoas
- 20 out · A PSP diz que os detidos formaram um cordão humano e ofereceram resistência.
- Um cordão humano de braços dados é resistência passiva, uma forma clássica de protesto pacífico. A Amnistia lembra que dispersar um protesto pacífico deve ser o último recurso. DNAmnistia
- 25 out · A PSP diz que teve três agentes feridos, que foram atiradas latas de tinta a polícias no Porto e que apreendeu um petardo e gás pimenta.
- Nessa noite a PSP contou 11 feridos, três deles polícias, mas só os hospitais de São José e de Santa Maria assistiram pelo menos 27 em Lisboa; as organizações contam dezenas. Para nós, estes incidentes não tornam violento um protesto que a Lusa descreve como pacífico até à intervenção. Comunicado da PSP, via CNNHospitais, via CNN
- O presidente do Sindicato Nacional de Oficiais de Polícia, Bruno Pereira, diz que o decreto de 1974 está em vigor enquanto o Tribunal Constitucional não disser o contrário.
- O Tribunal Constitucional nunca o apreciou. É por isso que há uma petição a pedir à Provedora de Justiça que lho envie. Lusa / Notícias ao Minuto
A 14 de novembro, a rua
Há manifestação nacional pela habitação em várias cidades.
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